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03/11/2025

Cultura do Afeto: o abismo entre discurso e prática na Comunicação Interna

Nos últimos anos, testemunhamos uma guinada significativa no vocabulário corporativo. Termos como “empatia”, “cuidado” e “humanização” tornaram-se comuns em discursos executivos e materiais de Comunicação Interna. No entanto, um fenômeno preocupante emerge: a apropriação superficial da Cultura do afeto, onde a linguagem da humanização é utilizada como ferramenta de gestão, sem que haja transformação genuína nas estruturas organizacionais.

Mas o que é apropriação da Cultura do Afeto?

A apropriação ocorre quando organizações adotam a retórica do afeto e do bem-estar de forma instrumental, buscando benefícios de produtividade e imagem, sem alterar práticas e políticas fundamentais. Caracteriza-se por:

  • Comunicação desconectada da realidade: uso excessivo de termos como “família corporativa” e “propósito” em culturas que perpetuam excesso de trabalho e desrespeito a limites pessoais.
  • Iniciativas fragmentadas: programas de “wellness” isolados, sem integração com políticas de gestão de pessoas.
  • Cobrança por performance emocional: pressão para demonstrações de gratidão e entusiasmo, criando uma “positividade tóxica”.

O papel da Comunicação Interna na cultura de afeto

Nós, comunicadores internos, nos encontramos em uma encruzilhada ética:

Quando somos parte do problema:

  • Ao reproduzir narrativas emocionais que mascaram realidades organizacionais complexas.
  • Ao criar campanhas de “felicidade corporativa” que ignoram questões estruturais.
  • Ao priorizar a imagem sobre a autenticidade nas comunicações institucionais.

Quando somos parte da solução:

  • Atuando como ponte genuína entre liderança e colaboradores.
  • Criando espaços seguros para diálogos difíceis e feedbacks honestos.
  • Desenvolvendo métricas que capturem não apenas engajamento, mas também confiança e percepção de autenticidade.

Estratégias para uma Cultura do Afeto autêntica

Alinhamento estrutural:

  • Integrar políticas de bem-estar aos sistemas de gestão de performance.
  • Estabelecer métricas de sucesso que equilibrem resultados empresariais e saúde organizacional.

Liderança vulnerável:

  • Capacitar gestores para comunicação transparente sobre desafios e erros.
  • Criar modelos de liderança que valorizem a autenticidade sobre a perfeição.

Cocriação com colaboradores:

  • Implementar processos participativos para desenvolvimento de políticas de bem-estar.
  • Estabelecer ciclos contínuos de escuta e ação baseada em feedbacks.

Transparência Radical:

  • Compartilhar abertamente métricas organizacionais relevantes.
  • Comunicar tanto sucessos quanto fracassos nas iniciativas de cultura.

O custo da apropriação superficial

Organizações que praticam a apropriação cultural enfrentam consequências severas:

  • Erosão da confiança institucional.
  • Aumento do cinismo e desengajamento.
  • Dificuldade em reter talentos.
  • Danos à marca empregadora a longo prazo.

Para além do discurso

A verdadeira cultura do afeto não se constrói através de campanhas de comunicação ou gestos isolados. Ela exige:

  • Coragem para confrontar contradições organizacionais.
  • Consistência entre discurso e ação.
  • Investimento em transformação cultural genuína.
  • Paciência para mudanças de longo prazo.

Como comunicadores internos, temos a responsabilidade de ser guardiões da autenticidade organizacional. O desafio é transformar a cultura do afeto de instrumento de gestão em alicerce de organizações verdadeiramente humanas.

Sua organização está cultivando uma cultura do afeto autêntica ou apenas colhendo seus benefícios de imagem?

Publicado em 24/11/2025

Cultura do Afeto: o abismo entre discurso e prática na Comunicação Interna

Autor: Flávio Benetti