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Além do burnout: quando a cultura da “busyness” silencia o talento

No cenário corporativo atual, a linha entre dedicação e exaustão tornou-se perigosamente tênue. Se a sua organização ainda mede o valor de um profissional pela quantidade de horas logadas ou pela prontidão em responder a e-mails de madrugada, é hora de um alerta. A cultura da “busyness” – essa glorificação incessante do estar sempre ocupado – transcendeu o mero risco de burnout. Ela se transformou em uma estratégia, muitas vezes não intencional, para esvaziar a empresa de seu ativo mais precioso: o talento humano.

Esta não é uma mera observação. É uma conclusão solidamente embasada em pesquisas. Um estudo recente, conduzido pelas notáveis pesquisadoras Lora E. Park, Alessia Italiano e Valerie Vessels, da Universidade de Buffalo, mergulhou profundamente nesse fenômeno. Elas acompanharam 1.830 profissionais de tecnologia em quatro continentes ao longo de seis meses, com um objetivo claro: desvendar o impacto real da cultura do “always on” [sempre conectado].

Os resultados, meticulosamente documentados no Journal of Occupational Health Psychology, pintam um quadro vívido e preocupante de um ambiente de trabalho tóxico e seus custos humanos e organizacionais.

Os dados que clamam por atenção

A pesquisa revelou uma cascata de problemas, onde pressões culturais dão origem a comportamentos específicos, culminando em consequências críticas para a saúde da empresa e de seus colaboradores:

  1. A pressão por disponibilidade constante: profissionais que se sentiam obrigados a demonstrar disponibilidade total e imediata – a essência do “always on” – foram os mais afetados.
  2. A ascensão do “task masking”: em resposta a essa pressão, esses indivíduos recorreram significativamente mais à prática do task masking. Este é o ato de simular produtividade através de tarefas visíveis, mas de baixo valor estratégico, enquanto o trabalho profundo e verdadeiramente impactante é deixado de lado.
  3. O preço humano e empresarial: esse comportamento de mascaramento foi diretamente correlacionado a níveis drasticamente elevados de: esgotamento emocional – a exaustão mental e física se tornou uma realidade crônica; intenção de rotatividade – o desejo de deixar a empresa disparou, indicando uma fuga iminente de talentos; comportamentos de saída – atitudes como absenteísmo e uma queda notável na produtividade tornaram-se mais frequentes.

Em suma, a ironia é cruel: a cultura que exige demonstrações constantes de trabalho está, na verdade, incentivando uma simulação de produtividade e acelerando a perda de seus melhores talentos.

Task masking: uma resposta tóxica a uma cultura tóxica

É crucial entender que o task masking não é um defeito de caráter individual, é um mecanismo de sobrevivência. Em um ambiente que, sutil ou explicitamente, valoriza mais a percepção de trabalho do que o resultado real, os profissionais rapidamente aprendem a otimizar sua energia para a visibilidade.

Eles priorizam:

  • Responder e-mails com agilidade, em detrimento de uma reflexão aprofundada sobre problemas complexos.
  • Participar de reuniões, mesmo que desnecessárias, em vez de focar em tarefas que exigem concentração.
  • Gerar relatórios de atividade, em vez de buscar um impacto mensurável e significativo.

É uma resposta lógica, quase instintiva, a um sistema que se tornou irracional. O colaborador, consciente ou inconscientemente, percebe que será recompensado por parecer dedicado, e não necessariamente por ser efetivo.

Líderes: criadores de cultura ou combustível para a toxicidade?

Os líderes não são meros observadores, eles são os arquitetos da cultura organizacional. O estudo sublinha que a pressão sentida pelos funcionários emana de expectativas não ditas, mas profundamente enraizadas, que partem da própria liderança.

Quando um líder ignora um e-mail enviado de madrugada, ele envia uma mensagem. Quando elogia quem “trabalha sem parar”, ele envia uma mensagem. Quando falha em priorizar, deixando a equipe sobrecarregada com múltiplas frentes, ele também envia uma mensagem.

A pergunta que ressoa para todo líder é: minhas ações e expectativas estão fomentando um trabalho profundo e significativo, ou estou inadvertidamente cultuando a “busyness”?

Quebrando o ciclo: construindo uma cultura de resultados, não de atividade

A transformação exige uma mudança sistêmica, que deve ser liderada de cima para baixo:

  1. Clareza estratégica radical: defina e comunique incansavelmente as 3 a 5 prioridades absolutas da organização. Quando todos sabem o que é verdadeiramente crítico, o trabalho fútil perde seu espaço e sua atração.
  2. Mensurar o impacto, não a atividade: redesenhe as métricas de performance. Celebre e recompense a entrega de resultados concretos, a inovação e o desenvolvimento de novas habilidades, jamais o número de horas trabalhadas ou a velocidade de resposta a mensagens.
  3. Liderança pelo exemplo: os líderes seniores devem ser os primeiros a respeitar e modelar limites saudáveis. Isso significa evitar enviar e-mails fora do horário comercial, tirar férias de verdade e defender publicamente o tempo dedicado ao trabalho focado e ininterrupto.
  4. Autonomia com responsabilidade: confie no potencial de seus talentos. Defina claramente o “o quê” e o “porquê”, e conceda a autonomia necessária sobre o “como”. Profissionais com autonomia genuína não precisam mascarar tarefas; eles se tornam verdadeiros donos de seus resultados.

A escolha entre o teatro e o resultado

O estudo de Park, Italiano e Vessels é inequívoco: a cultura da “busyness” e do task masking é uma escolha organizacional. E é uma escolha que acarreta custos humanos devastadores e, invariavelmente, resultados empresariais medíocres.

As organizações que não apenas sobreviverão, mas prosperarão na próxima década, serão aquelas que compreenderem que o verdadeiro luxo corporativo não reside em ter um funcionário sempre disponível, mas sim em cultivar um talento profundamente focado, engajado e capaz de gerar impacto real.

A pergunta final, e talvez a mais crucial, é: sua empresa escolheu o teatro ou o resultado?

Publicado em 13/10/2025

Além do burnout: quando a cultura da “busyness” silencia o talento

Autor: Flávio Benetti